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  • 11 de Fevereiro, 2012
HOME ENTREVISTAS BRUNO MARTINS SOARES: 'AS PESSOAS SENTEM-SE PODEROSAS A ESCREVER E A LER ESTES LIVROS'
Martin S. Braun:

Bruno Martins Soares: 'As pessoas sentem-se poderosas a escrever e a ler estes livros'

«Alex 9 - A Guardiã da Espada» é a nova aposta da Colecção Teen da Saída de Emergência. Mais uma revelação da literatura fantástica para jovens adultos, desta feita de um autor…português. Bruno Martins Soares falou com o Cultura Online.


Cultura Online: Quem é este Martin S. Braun? Também ele uma ‘personagem’ que por momentos entra por assim dizer no imaginário do Bruno e escreve sobre vários mundos?
Bruno Martins Soares: Bem, não sou o Fernando Pessoa... Nunca ninguém me tinha perguntado se o meu pseudónimo era, de facto, um heterónimo. À partida, diria que não. Julgo que quando decidi escrever a «Alex» com outro nome estava a tentar não ser categorizado, pois às vezes há essa tendência. Não queria ficar preso ao fantástico ou à ficção científica... Eu escrevo outras coisas com o meu nome, de outra maneira, e achei que precisava de um ‘autor alternativo’. Ou seja, você, se calhar, tem razão. Martin Braun é, de facto uma ‘personagem’ que sonha e escreve à sua própria maneira. Não me consigo imaginar a escrever com nome Martin S. Braun outra coisa que não fantasia e scifi. Pronto, ganhou. Sim.


CO: Foi algo que sempre o cativou, o fantástico?
BMS:
Acho que sim, sempre. E a BD, e as artes marciais, e o Espaço e as espadas e os cavalos... São temas muito estimulantes.


CO: O que mais o fascina ao escrever este tipo de livros? O facto de ‘tudo ser possível? Tornar por momentos o irreal possível no imaginário dos leitores?
BMS:
Isso de ‘tudo ser possível’ não é bem assim! Quando se escreve um romance, as personagens ganham a sua própria vontade, e não nos deixam fazer tudo o que nós queremos. Além do que esta área tem leitores exigentes, que não toleram necessariamente qualquer brincadeira que nos venha à cabeça. Julgo que parte do que me fascina nestes livros é essa exigência à imaginação. Somos obrigados a ir ao fundo de certos pressupostos, como a existência da magia ou a força da nobreza.
Por outro lado, há uma sensação de poder muito grande que nos é transmitida pelas personagens que também estimula imenso. Enfim, estamos a falar de personagens que ultrapassam perigos iminentes, através de espadeiradas, estratagemas e golpes de aikido. Quem é que não se sente poderoso a criar personagens assim?


CO: O que pensa desta nova vaga de literatura fantástica? Neste momento as editoras portuguesas lançam vários títulos do género, visto estar a ser uma aposta ganha.
BMS:
Acho que esta área tem um grande potencial porque trabalha algumas das fantasias mais primárias, como referi há pouco. As pessoas sentem-se poderosas a escrever e a ler estes livros. E também, verdade seja dita, a qualidade da escrita fantástica tem vindo a crescer bastante. Basta olhar para George R.R. Martin ou Anne Bishop para vermos uma sofisticação crescente que é muito interessante. Por outro lado, tal como a banda desenhada hoje em dia, o fantástico tem ganho a sua maioridade em Portugal e os adultos já não se importam de confessar que a leem, suponho.


CO: Na sua opinião qual é o segredo do sucesso deste tipo de livros? Pensa que há uma necessidade neste momento das pessoas saírem um pouco desta realidade e ‘viajarem para outro planeta’?
BMS:
Sempre houve. Talvez hoje haja mais liberdade para o admitir e mais liberdade para brincar até mais tarde. Veja os jogos de computador, que tantos adultos jogam. Eu lembro-me que o meu pai, por exemplo, sempre que chegava a casa ao fim do dia, gostava de ler um livro policial, ou de espionagem. Eu, por mim, prefiro scifi-fantasy. Acho que estes livros têm vindo a ganhar este estatuto de alguma seriedade, hoje em dia. Tal como a BD, suponho. Que adulto que se preze da idade dos nossos pais teria em casa uma coleção de BD? Pois eu não dispenso a minha.


CO: As editoras começam a apostar também neste género de literatura com autores portugueses, como é o seu caso. Pensa que em Portugal, e do que foi publicado até ao momento, temos bastante qualidade neste género? Costuma acompanhar as novidades em termos nacionais nesta área?
BMS: Confesso que não. Eu leio muitas coisas de muitos géneros, o que me obriga a ser muito seletivo no que compro e ainda tenho muitos autores importantes de fantástico que não explorei. Pelo que tenho visto nas livrarias e pelo pouco que leio, parece-me que temos cada vez mais e melhores autores nacionais nestas áreas. Mas também não nos podemos esquecer que até há dez, quinze anos atrás, não se escrevia nada em Portugal que não fosse literatura seriíssima. Ou pelo menos não havia escola. Agora o mercado abriu muito e os escritores têm outra liberdade. E quanto mais escritores, maior a necessidade de distinguir o trigo do joio, o que levará a uma tendência de médio-longo prazo de fazer subir a qualidade. Acho eu...


CO: Sei que também já escreveu contos, inclusivamente um deles foi publicado em Itália. Desta vez resolveu contar uma história ‘maior’. Qual foi o maior desafio ao escrever este livro? Conseguir parar de escrever? Sei que, apesar de publicado só agora já tinha o livro na gaveta, por assim dizer, há alguns anos.
BMS:
Não, eu não o tinha na gaveta – acabei de o escrever há uns meses. Tinha, talvez, na gaveta da mente, pois de um modo ou de outro já ando a pensar na «Alex 9» há muitos anos. Mas só há coisa de dois anos é que o comecei a escrever. E este não é o meu primeiro romance, é apenas o primeiro de boa qualidade. Existem outros quatro que nunca vão sair da gaveta, dê graças aos céus.
Quanto aos contos, não há melhor do que os contos para se treinar e trabalhar os enredos e o estilo. Como são pequenos, permitem todo o tipo de experiências e permitem deixarmos mensagens muito rápidas. Acho que é a melhor escola para qualquer autor que começa, e um modo fantástico de descansar entre romances. Além do que são muito divertidos de escrever. Não permitem, no entanto, desenvolver personagens muito profundas, parece-me, que é uma das coisas que me dá mais gozo.
Na minha opinião, a novela é a peça literária mais perfeita que é possível. Numa novela, conseguimos desenvolver as personagens e mesmo assim controlar de perto o enredo, obrigá-las a fazer o que nós queremos.
Um romance, por seu lado, é uma bosta. É um monte de porcaria de animal. É preciso sujarmos as mãos e envolvermo-nos na porcaria para escrevemos um romance. É preciso um compromisso emocional forte. Num romance, as personagens já não obedecem às nossas ordens como bem gostaríamos. São mais maduras. Perdemos muito o controle e às vezes é preciso muito trabalho e empenho para convencer as personagens a serem razoáveis e a respeitarem a história para que o enredo faça sentido. Estou a falar a sério. Às vezes chegamos a uma cena e precisamos que uma personagem faça uma determinada coisa e ela diz-nos «Não! Claro que não vou fazer essa parvoíce!» E não sai dali. E pronto, vamos precisar de dois meses para dar a volta à história... Este esforço é duro!  


CO: Escreve para o público em geral, em especial para jovens adultos. Quando tinha a idade do “seu” público que tipo de livros lia? Quem eram os seus “heróis”?
BMS: Tive sorte porque lá em casa tinha-se algumas tradições de leitura muito curiosas. O meu pai levava-nos, a mim e aos meus irmãos, uma vez por semana, a comprar revistas de BD da Marvel quando ia comprar o jornal de fim de semana. E aos sábados de manhã íamos à livraria e cada um de nós tinha direito a comprar um livro. Eu negociava com o meu irmão para comprarmos livros que os dois gostássemos, para termos dois livros para ler durante a semana. Olhando para trás eram momentos que me deixavam sempre feliz, e isso foi importante.
Assim, com onze ou doze anos li toda a coleção do «Tarzan» do Rice Burroughs e depois a do «Sandokan» do Salgari. E depois o «Senhor do Anéis» ou os livros do James Clavell. O «Shogun» e o «Tai Pan», por exemplo. E o Hubbard e o Asimov e o Lem e o Phillip K. Dick. E Verne. E Dumas. Mas o livro do género que mais impacto teve em mim na adolescência, lá para os meus dezasseis anos, acho que foi o «Dune» do Frank Herbert, que está maravilhosamente bem escrito.
Lia também uma coisa muito interessante que eram uns livrinhos pequenos de westerns que se compravam nas tabacarias. Foram uma grande escola literária, porque acabei por ler as mesmas duas ou três histórias (os westerns são todos iguais) escritos de dezenas de maneiras diferentes. Às vezes a má escrita é mais elucidativa do que a boa escrita. E ali era fácil distinguir uma da outra.
Mas hoje continuo a ler fantástico. Estou fascinado tanto com o Martin como com a Bishop, como já referi.


CO: Quem foram as suas grandes influências?
BMS:
Quando comecei a escrever contos, Boris Vian teve uma grande importância na minha escrita, mas costumo dizer que só aprendi a fazer descrições quando li Virgina Woolf.
Mas agora a falar a sério: as minhas influências vêm de muitos sítios. Frank Miller é um mestre da escrita e da cinematografia em papel que eu acompanho desde o «Demolidor» mas que me arrasou a partir de «Ronin». E não há como o Manga, de Koike ou de Kishiro, por exemplo, para aprendermos mesmo o que é o desenvolvimento de uma personagem. Os japoneses são simplesmente geniais nessa área.
E depois, o cinema e o Anime. Veja as cenas de ação. Já reparou como John Woo as coloca em câmara lenta em «Face off» ou «MI3»? Há-de reparar como ele usa pombos a voar, e chamas, para acelerar o background enquanto a câmara lenta reduz a velocidade da personagem, o que aumenta a intensidade. Este género de técnica pode ver-se no bom Anime, e nunca vi melhor Anime do que a série «Rarouni Kenshin», ou «Samurai X», como lhe chamamos em Portugal. No pico da ação, o ritmo é diminuído consideravelmente para aumentar a intensidade. Este é o tipo de técnicas que me influenciam e que pode ver na «Alex 9». Como um flashback no meio de uma batalha, ou uma descrição suave e pacífica no meio de uma luta mortal. Os japoneses são mestres nestas coisas.


CO: Que feedback tem tido em relação ao livro?
BMS:
Até agora, bastante bom! Acho que as pessoas têm a tendência para o ler de uma assentada, que é a melhor coisa que me podiam dizer!


CO: No fórum dedicado ao livro já há quem peça um segundo volume. Esse segundo livro vem mesmo aí?
BMS:
Vem. Prometo que no que depender de mim não demorará muito, está bem? Está mais ou menos a meio e a minha sensação é que está a sair melhor que o primeiro.


CO: O que podem os seus leitores esperar de si nos próximos tempos?
BMS:
Deixe-me que lhe diga uma coisa. Há escritores que escrevem para serem escritores e há escritores que são escritores porque escrevem. Eu escrevo porque adoro e não me consigo a imaginar a não escrever. Ser escritor é só o passo a seguir, pois implica também publicar.
Por outras palavras: vou continuar a escrever de certeza, e com um bocadinho de sorte continuarei a publicar. Tenho mais projetos na cabeça do que alguma vez poderei escrever, de modo que não sei muito bem qual será o próximo.
Quanto à «Alex 9», neste momento o projeto deverá ser uma trilogia. De modo que a seguir ao próximo, deverá vir outro volume. O final. Que neste momento já me está a fazer água na boca, confesso. Se conseguir convencer as personagens a fazerem aquilo que eu quero, será bombástico!

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