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  • 11 de Fevereiro, 2012
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Inês de Barros Baptista: 'As pessoas lidam mal com a dor, com o sofrimento'

Inês de Barros Baptista: 'As pessoas lidam mal com a dor, com o sofrimento'

A força, a determinação, a fé e a coragem: sentimentos presentes na vida e na morte. Inês de Barros Baptista reuniu no livro 'Morrer é só Não Ser Visto' testemunhos de diferentes maneiras de encarar a perda de alguém querido. 'Falar do luto de coração aberto'.



Cultura Online: Em que momento sentiu que tinha necessidade de escrever este livro?

Inês de Barros Baptista:
Há dez anos, quando o meu marido morreu atropelado, senti uma necessidade imensa de ir à procura de histórias e de testemunhos de pessoas que tivessem passado por situações semelhantes. Encontrei muito pouca coisa. À medida que o tempo foi passando, surgiu a ideia de um dia recolher eu própria esses testemunhos e compilá-los em livro. Mas foram necessários todos estes anos para que, finalmente, essa ideia se concretizasse.


C.O.: Qual a primeira reacção das pessoas quando lhes pediu o seu testemunho?

I.B.B:
Houve apenas duas que começaram por me dizer que não, que não queriam, que não tinham coragem de voltar a remexer no passado e na dor. Mas, explicados os objectivos do livro, acabaram por aceitar. Mesmo assim, há quatro testemunhos em que as pessoas optaram por utilizar um pseudónimo.


C.O.: Já conhecia de antemão todas estas histórias aqui publicadas ou procurou-as? Como as ‘encontrou’?

I.B.B.:
Conhecia apenas três. As outras foram “aparecendo”. E este processo foi muito curioso, pois cada uma delas aparecia no tempo certo, ou seja, como se só fizesse sentido encontrar a seguinte, depois de ter falado com a anterior. Decidi também recolher testemunhos de três figuras públicas, pois creio que gostamos sempre de saber como é que essas pessoas passam por estas situações.


C.O.: Com que sentimento ficou depois de conhecer todas estas histórias?

I.B.B.:
Que cada um faz o seu caminho, de acordo com as suas crenças e a sua fé, com a sua personalidade, com as suas forças e fraquezas e com a ajuda dos que lhes são próximos. E que somos todos muito mais capazes do que, à partida, julgamos para lidar com situações de perda.


C.O.: Qual a ideia que tinha da morte antes de escrever este livro?

I.B.B.:
A minha ideia da morte não mudou com este livro. Sempre acreditei, por exemplo, que a morte mais não é do que uma passagem. E constatei que há mais gente a pensar assim.


C.O.: A morte, o ‘viver depois da morte’, não é um assunto vulgarmente tratado na Literatura em Portugal. Qual o seu maior desafio ao escrever este livro?

I.B.B.:
Não creio que se possa falar num desafio... Nem, tão pouco, em literatura, uma vez que este é um livro de recolha de testemunhos, um texto até mais jornalístico do que literário. Mas posso dizer-lhe que tenho um outro livro em mãos, esse sim, literário, e que fala também na vida depois da morte. É um tema pelo qual me sinto particularmente fascinada e sobre o qual gosto de escrever.


C.O.: Em que medida a escrita a ajudou a ultrapassar o luto?

I.B.B.:
Na altura em que o meu marido morreu, eu era directora da revista PAIS&Filhos. Escrevi imensos editoriais sobre essa morte, partilhei com os meus leitores muitos sentimentos, muitas dúvidas e algumas certezas, e isso fez-me muito bem. Para mim, a escrita tem um grande poder de catarse e o simples facto de pormos por escrito aquilo que nos vai na alma pode ajudar-nos a “organizar” as emoções e a torná-las “visíveis”. Ou seja, a partir do momento em que as exteriorizamos, elas deixam de andar em círculos dentro da nossa cabeça e saem cá para fora, muitas vezes possibilitando novas perspectivas.


C.O.: Pensa que uma parte de fazer o luto passa por exteriorizar o que sentimos, recorrendo à partilha de sentimentos, a uma certa libertação?

I.B.B.:
Sem dúvida. Exteriorizar o que sentimos é sempre uma oportunidade de nos ouvirmos a pensar. E, quando pensamos em voz alta, quando partilhamos com alguém os nossos sentimentos, as nossas dúvidas, tudo se pode tornar mais claro. Ter eco é muito importante. Caso contrário, há uma série de coisas que ficam “trancadas” em nós e que não se resolvem.


C.O.: O livro, com estes testemunhos, contraria, no entanto, a ideia de que a morte é ainda um grande tabu. Na sua opinião, o que envolve este tabu?

I.B.B.:
Mas a morte é um tabu. Numa sociedade que considera mais importante o TER do que o SER, a morte só pode ser um tabu. E é tabu no sentido em que, muitas vezes, preferimos não falar dela, achando que assim não precisamos de a encarar de frente. Como não podemos resolvê-la, nem evitá-la, preferimos fingir que não existe. Muitas vezes, este tabu nem sequer é para quem passou por uma perda, mas para todos os outros que estão próximos e que não aguentam falar disso com a pessoa que está a fazer o seu processo de luto. Talvez achem que, assim, essa pessoa vai esquecer mais depressa... As pessoas lidam mal com a dor, com o sofrimento. Não percebem que, por vezes, é bom ir ao fundo dessa dor, é bom deixar que o sofrimento seja absoluto, pois só quando conhecemos a fundo um sentimento o podemos transmutar.


C.O.: “O desconhecido mete-nos medo e ao mesmo tempo dá-nos força que nunca julgamos ter”, diz num dos testemunhos que recolheu. Pensa que é isto que ainda assusta as pessoas? Falar de algo que ainda não conseguem descodificar? Os assuntos tabu estão frequentemente ligados à ideia de mistério. E as pessoas receiam o mistério. Por outro lado há uma certa necessidade de acreditar em algo mais…

I.B.B.:
Penso que uma coisa é a necessidade de acreditar em algo mais. E outra é, de facto, acreditar em algo mais. E há uma diferença fundamental entre estas duas atitudes. A necessidade surge por medo e vem de fora para dentro. Já a crença, ou a fé, surge de dentro para fora e não precisa de provas.


C.O.: José Luís Peixoto tem uma frase curiosa: “Qual é a admiração de as coisas se cumprirem como nos disseram que era?” Na realidade nunca estamos preparados para lidar com a morte, não é verdade? Cultivamos demasiado a ideia de que somos eternos?

I.B.B.: Cultivamos demasiado a ideia de que as coisas e, neste caso, também as pessoas, nos pertencem. De certa forma, isso dá-nos a sensação – ou a ilusão – de que as podemos controlar. Quando, então, ocorre uma perda, sobretudo quando essa perda é prematura – como na maior parte dos casos dos testemunhos que recolhi para este livro – revoltamo-nos, pois tudo fugiu ao nosso controlo. Se vivermos mais desprendidos do que temos, e em maior sintonia com o que somos, penso que será mais fácil, ou menos difícil, aceitar a morte de alguém que nos é querido.


C.O.: “The wondering mind is wondering in search of meaning”, aparece a certa altura no livro. Acredita que é isto que faz com que as pessoas acreditem em algo superior? A tentativa de encontrar uma resposta para algo que até agora não sabem bem explicar? O mistério da morte?

I.B.B.:
A filosofia nasce, precisamente, do espanto e da necessidade de questionar tudo aquilo que nos escapa no mundo. E a morte é, sem dúvida, o grande mistério. Mas não sei se é apenas um mecanismo mental aquilo que nos faz acreditar em algo superior. Penso que a fé transcende a mente e que nunca é racional a nossa crença em algo superior.


C.O.: O uso da memória como apaziguador é um factor importante no luto. As pessoas relatam que preferem guardar os bons momentos e acreditar num reencontro. Refugiam-se na sua fé para melhor superarem a perda. Em casos destes de perda de um ente querido em que questionam tudo e todos qual a importância da fé no processo de luto?

I.B.B.:
Aqui só posso falar em termos pessoais. Para mim, não há dúvida nenhuma de que ter fé é um enorme privilégio. Porque me dá a certeza de que existe um sentido para alem de tudo o que é visível e palpável. Mesmo que eu não seja capaz de o atingir, mesmo que tudo pareça não fazer sentido nenhum, a fé de que está tudo certo é uma ajuda preciosa.


C.O.: Este acreditar no reencontro ajuda a ultrapassar a dor da ausência?

I.B.B.:
Talvez ajude, sim. Ainda que eu acredite que os que morreram continuam presentes. Apenas já não existe contacto físico, mas a presença, a presença da energia daquela pessoa continua connosco.


C.O.: Pensa que as pessoas começam uma espécie de segunda vida após a experiencia da morte de alguém tão próximo? Dá-se o tal ‘clique’ de viragem?

I.B.B.:
Pode dar-se ou não. Depende de cada pessoa, depende do processo que faz, depende do grau de aceitação. Quem fica preso na sua dor, quem se sente uma vítima das circunstâncias, quem entra na auto-comiseração... dificilmente conseguirá o tal “clique”. Por outro lado, não tenho uma dúvida de que, ao aceitarmos a morte e ao intuirmos nela um sentido para além dos nossos sentidos, podemos abrir uma série de portas, em termos de evolução espiritual.


C.O.: Que reacções tem tido por parte dos leitores?

I.B.B.:
As reacções têm sido muito boas e penso que o livro está a cumprir o tal objectivo de servir de exemplo e de inspiração a quem quer que tenha passado – ou que esteja a passar – por um processo de luto.


C.O.: Qual a sua relação com a morte hoje?

I.B.B.:
Acredito profundamente que os que morrem estão vivos de outra forma. E nem sequer estão “do outro lado”. Estão aqui, ao nosso lado. Ou apenas a seguir à curva da estrada, como diria Fernando Pessoa.


C.O.: Como foi para si conhecer Anne Germain e que impacto teve ela na sua vida?

I.B.B.: Gostei imenso de conhecer a Anne Germain. Acho que ela faz um trabalho muito sério e é uma pessoa muito simples. Levei lá imensa gente que se sentiu tocado pela forma como comunica com o mundo dos espíritos. Mas, lá está... Mais do que uma mente aberta, é preciso ter o coração aberto para deixar que estas coisas aconteçam nas nossas vidas. Quem, por preconceito ou outra coisa, acha absolutamente disparatado que alguém consiga comunicar com os mortos, nunca vai ser capaz de passar por uma experiência com a Anne ou com qualquer outro médium..

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