ENTREVISTAS
«OS TEMAS DA HISTÓRIA DE ALCOVA SÃO SEMPRE APELATIVOS»
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Depois do sucesso de 'Amantes dos Reis de Portugal', Ana Cristina Pereira e Joana Troni apresentam 'Amantes dos Reis de França'. Sexo e sedução são as armas utilizadas com uma única finalidade: o poder. Entre na corte francesa através das amantes régias.
Cultura Online: Depois do sucesso do primeiro livro ‘Amantes dos Reis de Portugal’, este ‘Amantes dos Reis de França’ vai já na segunda edição. O que acham que tem despertado a curiosidade dos leitores?
Os temas da história de alcova são sempre apelativos, sobretudo quando o leitor, ao folhear o livro ainda na livraria, se apercebe que em ambos os trabalhos se vai acompanhando a vida privada dos reis e rainhas com o devido enquadramento histórico. Além disso, como é escrito por historiadores, acreditamos que os leitores ainda se sentem mais curiosos, já que sabem que existiu uma criteriosa selecção de documentos.
C.O.: Qual o fascínio de pegar nestas personagens que marcaram profundamente períodos da História? No fim de contas trata-se se descobrir que as grandes potências da Europa tinham também grandes histórias de alcova…
O amor e o sexo são parte integrante da vida e esta é uma verdade absoluta desde que o mundo é mundo. Como já frisámos no primeiro trabalho, esta não é uma história de alcova, já que nada tem de anedótico. O que fazemos, em ambos os livros, é tentar sublinhar os aspectos mais íntimos daqueles homens e mulheres que estiveram à frente dos destinos de Portugal e de França, enquadrando-os no cenário histórico em que se inscreveram e que condicionaram sobremaneira a vivência desses amores legítimos e ilegítimos.
C.O.: Como encararam este novo desafio?
Mais uma vez a proposta partiu da Editora Esfera dos Livros, que tem vindo a seguir uma política de divulgação da História. Quando terminámos “Amantes dos Reis de Portugal” e iniciámos as entrevistas, era muito comum perguntarem-nos se em Portugal havia mulheres como uma Madame de Pompadour, por exemplo. Ora, a madame de Pompadour nem sequer foi das mais poderosas amantes francesas... Por isso foi um grande desafio, que encarámos com bastante apreço, descobrir detalhes sobre as/os amantes dos reis e rainhas de França.
C.0.: Quais as maiores diferenças em termos de trabalho de pesquisa/bibliografia do caso português para o caso francês? No caso português referiram que a bibliografia disponível não era muita…
As diferenças foram enormes. No caso português, a bibliografia existente era quase nula e quando existia tinha de ser lida com imenso cuidado, já que muita dela fora escrita com objectivos políticos concretos que visavam, a mais das vezes, denegrir a imagem dos monarcas, acrescentando ou acentuando pormenores que na realidade não se verificavam na documentação; da mesma forma, a pesquisa documental foi bastante morosa, porque infelizmente tem-se assistido a um não investimento nos Arquivos Nacionais o que impossibilita, por exemplo, a existência de catálogos sistemáticos de fontes, nomeadamente no Arquivo Histórico da Biblioteca da Ajuda. Tínhamos, no entanto, a vida facilitada por já conhecermos os métodos de pesquisa para a história da corte, que ambas trabalhámos nas nossas dissertações de Mestrado. Para o caso francês, o trabalho estava, a priori, facilitado. A bibliografia existente era abundante e os arquivos franceses permitem a pesquisa e encomenda de cópias online, o que nos permite estar nas bibliotecas francesas a partir de Lisboa. No entanto, fizemos ainda algumas viagens a Paris, para confirmar alguns documentos e adquirir recente bibliografia.
C.O.: Depararam-se com novos dados que desconheciam durante a pesquisa?
Estudar a história de outro país que não o nosso não foi tarefa fácil. Sobretudo quando estamos a falar de França, que mantém contactos diplomáticos e alianças matrimoniais com toda a Europa. Muito do que escrevemos acabou por nos surpreender, na medida em que as relações eram muito mais intrínsecas e complexas do que se podem imaginar. Temos a certeza que o leitor português se vai surpreender por ver, por exemplo, Henrique de Valois, um príncipe francês no trono da Polónia e depois fugir desse país, a meio da noite e perseguido pelos polacos, apenas para tomar a coroa de França que entretanto ficara vazia com a morte do irmão.
C.O.: Qual a personagem que mais as ‘fascinou/surpreendeu’ por assim dizer?
Duas amantes surpreenderam pela sua devoção e amor ao homem e não ao rei. A primeira delas, Odinette de Champdivers, amante de Carlos VI, foi nomeada para amante do rei num período em que a loucura já o assolava; e, em todos os momentos menos lúcidos, era Odinette que o conseguia acalmar, numa época em que todos se afastavam dele, incluindo a rainha. Uma outra, madame de Maintenon, que durante cerca de 30 anos vive um forte amor platónico e intelectual com Luís XIV, sendo a ama dos filhos do rei com a sua amante madame de Montespan e tratando as crianças como se fossem os seus verdadeiros filhos; acabará por casar com o rei, embora nunca queira exercer o estatuto de rainha.
C.O.: Todas estas histórias de amantes, algumas quase foram rainhas, deram azo a muitas lendas e histórias romanceadas. Era esta vertente do romance e intrigas dos reis que apaixonava também os súbditos? A maior parte das amantes eram aceites aos seus olhos. No caso de Inês Sorel, por exemplo, é referido que ditou modas…
Na mais das vezes os súbditos nada tinham que ver com o que se passava na corte. Era um outro mundo. E era na corte que as amantes se impunham, chegando a ameaçar alguns dos poderes instalados. Inês Sorel, o exemplo referido, poderia vir a ser tão influente que morreu envenenada, como o comprovaram recentes estudos forenses.
C.O.: Para lá da ideia de romance, outra ideia que fica também é da enorme influência política, sendo as amantes usadas como espias. .. Estas eram vistas com bons olhos pela corte, ao contrário do que sucedia no caso português..
A questão da espionagem é central na história política e diplomática europeia, embora, na realidade, quanto mais eficaz era a rede menos detalhes se conhecem hoje. Em “Amantes dos Reis de França”, vamos acompanhar o tempo dos últimos Valois e das guerras de religião, sendo que para esse período se conhecem bastantes pormenores de algumas espias ao serviço de Catarina de Médicis. Vistas com bons olhos não era bem o termo... Eram damas nobres fiéis à sua rainha e que estavam treinadas nas artes de sedução para conseguirem as informações pretendidas. Eram até olhadas com desconfiança, por serem extremamente perigosas e hábeis.
C.O.: Outra das diferenças que se encontra em relação ao caso português está na discrição destes casos amorosos. No caso francês as relações nunca foram por assim dizer ‘escondidas’, conviviam com as próprias rainhas na corte, tendo alguns dos seus nomes ficado gravados na História, como o de Madame Pompadour ou Diana de Poitiers.
Essa é a grande diferença entre as cortes portuguesa e francesa no que se refere à vivência dos amores ilegítimos. Em Portugal, as amantes eram mantidas fora do paço; mesmo quando eram damas da corte, a maioria das vezes os encontros íntimos faziam-se noutros locais que não o palácio onde habitava a rainha e os príncipes legítimos. Em França, as amantes eram assumidas pelos reis, como Favoritas oficiais e secundavam a rainha em todas as cerimónias. Acrescia que muitas das amantes dos reis de França eram elevadas pelos monarcas a títulos de nobreza, cumprindo assim o rei um dos pontos mais importantes deste tratado de cavalheiros: garantir um rendimento e um estatuto que permitisse às amantes viver condignamente na corte para além do tempo que durava a paixão régia. Diana de Poitiers ou Madame de Pompadour ficaram mais no nosso imaginário colectivo do que na história... Neste livro, descobrimos outras mulheres, até mais interessantes e activas do ponto de vista político. Importa ainda sublinhar que no respeita aos amantes das rainhas e princesas, a sua não aceitação era igual em toda a Europa e temos o exemplo claro de Margarida de Valois que pelo seu comportamento “feminista” acabará presa num castelo, apesar de irmã de reis.
C.O.: Também ao contrário do que talvez se pensasse (o amor no centro das relações entre reis e amantes), a maior parte destes ‘amores’ eram por assim dizer ‘planeados’, tinham por finalidade a ascensão ao poder, o interesse, por parte das amantes. Era esta uma faceta muito pouco conhecida dos leitores? E que faltava explorar e esclarecer?
Este é um pormenor importante. Para a corte francesa, a grande maioria das amantes são damas nobres, muitas vezes educadas pela família mais próxima para aprenderem a seduzir o rei, conseguindo assim em troca importantes contrapartidas para a família. Um dos exemplos flagrantes é o de Gabrielle d´Estrées, que quando conheceu Henrique IV estava apaixonada e era correspondida por um dos homens do rei... Mas foi obrigada pela família a subjugar-se à vontade régia, esquecendo o amor que sentia. Um outro exemplo é o da família Mailly, que terá três irmãs convivendo intimamente com Luís XV. É uma outra faceta do “amor”.
C.O.: Tratava-se de dar a conhecer o importante papel que todas elas desenrolaram na corte, não é assim? Actuando, por vezes, como verdadeiras rainhas…
Muitas das amantes exerceram uma forte influência sobre os monarcas, intervindo até em aspectos de política internacional, sendo visitadas e consultadas por embaixadores estrangeiros. Mas nenhuma delas cumpriu o mais importante papel da rainha: gerar um herdeiro à coroa francesa. Nem com os Valois nem com os Bourbon, um filho bastardo se sentou no trono.
C.O.: Este livro é sobretudo um livro sobre mulheres, sobre o poder e a influência que a mulher tem sobre o homem. Sentem que este livro só poderia ter sido escrito por mulheres? Foi importante que assim acontecesse?
Cremos que não. Este é um livro sobre a vivência do amor articulada com a política e com a história. Os métodos que seguimos foram os do historiador: a criteriosa selecção das fontes, análise crítica, escrita reflectida. Naturalmente o trabalho que saiu seria diferente se escrito por outras pessoas, mas não cremos significativo ter sido escrito por mulheres.
C.O.: Sentem que, ao longo deste ano, com o lançamento de novas biografias com grande aceitação por parte dos leitores, de importantes personagens da nossa História, como o Infante D. Henrique ou as Avis, por exemplo, ambos livros editados pela Esfera dos Livros, há um renascer do interesse pela História? Será esta uma nova forma, mais divertida e menos ‘pesada’, de chamar os leitores para saberem mais sobre a História?
Acreditamos que o interesse do público tem de facto que ver com a forma como estes novos trabalhos estão escritos. Feitos por historiadores, rigorosos, mas escritos a pensar num público que não domina a história, longe do vocabulário académico, são livros que fascinam por dar a conhecer facetas menos conhecidas da nossa história.
C.O.: Que balanço fazem desta aventura?
No início o desafio não foi fácil porque nos obrigou a sair da esfera estritamente académica à qual estávamos adstritas, mas a boa recepção do livro anterior, “Amantes dos Reis de Portugal” mostrou-nos que o objectivo de levar a história a um público mais vasto de forma científica mas divulgativa também é possível e importante. Para ambos os trabalhos, aprofundámos alguns aspectos que contribuíram para o nosso próprio enriquecimento.
C.O.: Há algum outro país sobre o qual haveria um rol de histórias de alcova dignas de serem contadas num terceiro volume? O caso de Inglaterra por exemplo…
O caso inglês é muito frutífero em amantes. Só Carlos II, casado com a portuguesa Catarina de Bragança teve mais de 15 filhos naturais. De qualquer das formas, esse é um projecto que de momento não faz parte dos nossos horizontes. Mas temos outros desafios que cremos que irão agradar bastante aos leitores...
