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  • 09 de Setembro, 2010
HOME ENTREVISTAS 'O SER HUMANO GOSTA DE ACREDITAR QUE ALGUMAS COISAS TRANSCENDEM A MORTE'
Um grito de amor desde o centro do mundo

'O ser humano gosta de acreditar que algumas coisas transcendem a morte'

‘Um Grito de Amor Desde o Centro do Mundo’. É este o nome do maior best-seller do Japão, escrito por Kyoichi Katayama, recentemente editado em Portugal. Conheça um pouco mais do autor que já deu o nome de Portugal a um livro e que lá do outro lado do Mundo ouve…Fado.



Qual o tema principal do livro ‘Um Grito de Amor Desde o Centro do Mundo’? O amor impossível, ou o amor imortal?
Na verdade, não escrevi o livro centralizando-o no tema do amor. Em vez disso queria realçar a beleza e a pureza que existe dentro do coração de cada um.


Decidiu escrever este livro quando leu que o amor comportava uma certa ‘violência’. No entanto, toda esta história decorre sem o recurso à dramatização. Está o amor destinado a ser um conhecimento construtivo e não destrutivo?
Nunca pensei que o amor era ‘violento’. Penso que o amor será algo mais delicado e filosófico.


O amor não pode ser separado da descoberta?
Penso que a nossa vida é uma contínua busca de algo. Do ‘Amor’, por exemplo.


Escolheu um casal de adolescentes para retratar esta história de amor. Porquê? Pelo facto da adolescência ser uma importante fase de descoberta de cada um?
Tem muito que ver com a descoberta individual, como diz, e também com a beleza e a pureza dentro dos seus corações, como disse anteriormente.


Quando começamos a leitura de ‘Um Grito de Amor Desde o Centro do Mundo’ sabemos de imediato o que vai acontecer ao longo do livro. Amor, dor, lágrimas e morte: são estes os ingredientes fundamentais do romance?
Não necessariamente; poderia ter escolhido começar o livro com palavras de ódio e felicidade e mesmo assim escrever um romance. Apenas escolhi não ser esse o tom do romance.


Conta a história através de um adolescente e do seu avô. Pode dizer-se que optou por retratar a história em duas perspectivas: o amor no seu início e o amor ‘no fim’ da vida. O avô faz um papel de grande companheirismo na história, não é assim? Criando entre eles um debate acerca do amor e do seu lado mais metafísico…
Pensei que o alcance do romance seria demasiado estreito e imediato se o escrevesse exclusivamente a partir de uma só perspectiva, a do jovem. Foi por essa razão que introduzi outra perspectiva, essa do ‘fim da vida’, personificada pelo avô.


De certa maneira o avô parece ser aquele que lhe diz que o amor é eterno…
O ser humano gosta de acreditar que algumas coisas transcendem a morte. Acredito que a arte, a religião, e outras manifestações culturais reflectem esta ideia.


Quando a Aki morre opta por não fazer disso nenhum drama. O que quis realçar com isso? De alguma forma transmite que o importante não foi a sua morte, mas algo mais. Os sentimentos mais profundos sobrevivem?
Descrever a morte da Aki não era muito importante para mim. Em vez disso quis focar-me nos sentimentos, pensamentos e acções que as pessoas sentem e têm quando se deparam com a morte iminente dos seus entes queridos, quando se apercebem que a morte é uma realidade.


Dizem que há um momento, acerca da morte daqueles que amam, em que a saudade se transforma na recordação de momentos felizes, tendo aqui a memória um importante papel.
As lembranças que envolvem o ‘Amor’ tendem a modificar-se com o passar do tempo, e tendem a ‘amadurecer’ juntamente com a pessoa. Penso que é por isto que a memória tem um papel tão importante.


Este livro é o maior best-seller da literatura japonesa. Qual o segredo? Ficou surpreendido com tanto sucesso em tantos países diferentes?
Honestamente, não sei como o livro se tornou um best-seller no Japão. Penso que o que houve foi um conjunto de factores fortuitos e outros aspectos sobre os quais não tenho conhecimento. Para mim, o facto deste livro ter sido tão bem aceite em outros países é também ele uma surpresa e um puzzle.


O que são, para si, o amor e a morte?
Quando se presta atenção aos rituais da morte praticados um pouco por todo o mundo, ou para as construções religiosas como pirâmides, igrejas ou catedrais, pode constatar que estas são representações que transcendem o aspecto físico da morte e que dão mais força à expressão ‘vida depois da morte’. Penso que as pessoas descobriram o que elas chamam de ‘Amor’ depois de encararem a morte desta maneira.
É por isto que considero que ‘Amor’ e ‘Morte’ são dois lados da mesma moeda e ambos estão intrinsecamente ligados ao ser humano. Para mim, escrever sobre o amor e sobre a morte no meu romance é descrever a condição humana no seu grau mais profundo.


Quais foram/são as suas maiores influências na literatura? Quem podemos encontrar na sua biblioteca?
É difícil citar nomes como sendo as minhas influências, tendo em conta que são muitos e foram mudando ao longo dos anos. A minha biblioteca tem literatura clássica e contemporânea; com autores japoneses e estrangeiros. Tenho também outros livros sem ser literatura: de Filosofia, Ciências Sociais e Ciências Naturais. Estes livros também me influenciaram.


Como descreve o actual estado da literatura japonesa? Li recentemente alguns artigos que defendiam que a literatura japonesa é muito mais do que Murakami’ (com bastante sucesso em Portugal).
Se por um lado é verdade que a 'literatura japonesa é muito mais do que Murakami’, também é verdade que actualmente não há nenhum autor que o supere. Penso que isto espelha bem o actual declínio da literatura japonesa.


Teremos algum outro livro seu publicado em Portugal?
Não interfiro directamente com o processo mas gostaria de ter mais romances publicados em Portugal.


Já esteve alguma vez em Portugal?
Infelizmente nunca estive em Portugal. No entanto, quando andava na faculdade escrevi um pequeno romance que se chamava ‘O Mar de Portugal’. Ouço também muito Fado. E gostaria muito de visitar Portugal um dia.

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