ENTREVISTAS
ISAAC ROSA: 'PARA MIM A LITERATURA É UMA POSSIBILIDADE DE INTERVIR NA SOCIEDADE'
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Pense em todos os seus medos. Agora pense que todos esses medos um dia se tornam reais… 'O País do Medo', do espanhol Isaac Rosa retrata, num lugar imaginário, a materialização de todos os nossos medos, livro que lhe valeu o VIII Prémio Fundação José Manuel Lara. O livro foi apresentado na 11.ª edição do Correntes d'Escritas, na Póvoa de Varzim, e o Cultura Online falou com o escritor.
Este é um livro sobre o medo ou contra o medo?
É um livro sobre as duas coisas e algo mais. É um livro sobre o medo no sentido em que é uma aproximação da Literatura ao debate sobre o medo, à sociedade do medo, ao lugar que o medo ocupa hoje na sociedade e é também um catálogo do medo: os medos contemporâneos, os medos do nosso tempo. É também um livro contra o medo, no sentido em que propõe um exercício de reflexão, de pensamento, para sermos capazes de viver sem medo. Por isso é um livro sobre o medo e contra o medo. É também um livro de medo, para que o leitor o leia com medo, que se converte numa espécie de thriller contemporâneo.
Como partiu para esta ideia de escrever sobre o medo? Houve algum episódio em particular que o despertou para esta temática?
É um livro que nasce da observação de mim mesmo, da minha família, do que gira à minha volta, da minha cidade, do meu país. É um livro que começa a partir de uma pergunta. A pergunta é ‘Porque é que tenho medo?’. Determinados medos condicionam a nossa vida. A partir daí comecei a olhar à minha volta, para o meu bairro, a minha família, a minha vida e fui descobrindo uma série de sinais que têm que ver com o medo, com o espaço que o medo ocupa nas cidades, e com a nossa relação com o medo, como convivemos com o medo, como organizamos a nossa vida, como dispomos de uma série de defesas contra o que consideramos ameaças. É um livro que tenta ser uma reflexão sobre tudo isso, a partir da ficção, da literatura, pois creio ter uma maior capacidade de reflexão do que o ensaio ou que o jornalismo. Portanto trata-se de um livro que pretende responder a essa pergunta: ‘Porque é que temos medo?’.
Este livro tem muitos dos seus medos? Tem por base os medos de um pai em relação ao seu filho. Quão pessoal é este livro?
Sim, há alguns medos meus que estão no livro. Não sou o Carlos, o protagonista do livro, e não partilho de muitos dos seus medos..
Mas tem alguns..
Alguns, sim. Se posso partilhar alguns são seguramente os relacionados coma paternidade. Creio que são os medos muito comuns na minha geração, e há no livro uma série de mensagens que são direccionadas aos pais, sobre como o mundo é um lugar perigoso para os nossos filhos. Esses medos são os mais comuns e os mais difíceis de evitar, os relacionados com os filhos. E torna-se difícil encontrar esse equilíbrio entre proteger os filhos sem lhes condicionar a liberdade.
Vivemos numa era de obsessão pela segurança. Estaremos realmente seguros? Esta não é uma falsa ideia?
Sim, creio que é. Isso é um paradoxo. Vivemos objectivamente num tempo mais seguro, num mundo muito mais seguro daquele dos nossos pais ou dos nossos avós. Há mais meios para nos proteger…
Temos telemóveis, mais tecnologia de controlo…
Sim, temos mais tecnologias, mais capacidade para nos defender de muitas ameaças. Mas ao mesmo tempo sentimo-nos mais inseguros, mais vulneráveis, mais ameaçados. Este é o grande paradoxo dos nossos dias. Como vivemos na incerteza quando temos mais elementos de conhecimento? Somos capazes de conhecer o mundo como nunca foi possível, mas ao mesmo tempo sentimo-nos perdidos, temos mais medo.
Diz que os seus livros têm sempre esta característica de despertar o debate. É sempre este o objectivo dos seus livros? Ter um carácter interventivo?
Sim. Para mim a Literatura é uma possibilidade de intervir na sociedade e no meu tempo. Quando escrevo um livro procuro lançar um debate. Neste caso, e tal como nos meus livros anteriores, em que lancei o debate sobre a memória histórica, dobre o franquismo, com ‘O País do Medo’ quis abrir um debate contemporâneo, que tem que ver com essa sociedade do medo que estamos a construir. Creio que é um debate que está mais avançado em outros países mas em Espanha não. Em Espanha é algo do qual não se fala.
É por isso que afirma que os seus livros são literatura política?
Sim, claro. É literatura política nesse sentido, no sentido da participação dos cidadãos. Não significa num sentido partidário, político, não é uma literatura no sentido militante. Creio que a minha literatura é política e que toda a literatura é política. Toda a literatura intervém no seu tempo. Queira o autor ou não, toda a literatura intervém e toda ela propõe ao leitor uma interpretação do mundo. Pode ser uma interpretação que concorde com o mundo em que vive ou que proponha uma alternativa.
Pensa que em Espanha há pouca dessa ‘literatura crítica’, que explore os temas da actualidade?
Sim. Penso que em Espanha, de momento, temos num nível literário médio-baixo.
Mas há alguns autores que explorem esta temática e que o Isaac consulte?
Sim, já há alguns autores que seguem esse caminho de uma intervenção social. Há um autor que me interessa muito que é Rafael Chirbes porque em cada livro propõe também uma reflexão. Nesse sentido penso que em Espanha há autores mais interessantes no campo do ensaio do que no do romance. E o que acontece é que neste momento, em geral, há mais romances que podemos chamar de ‘comercias’…
Romances light?
Sim.
Nesta questão do medo, pensa que o poder político está a ter um grande papel? Em difundir o medo?
Claro. O grande beneficiário do medo é o poder. Sempre, não só agora.
Económico também?
Sim, qualquer um dos poderes beneficia de uma sociedade assustada, é melhor do que ter uma sociedade informada. Creio que hora de fazermos uma pergunta fundamental para fazermos: quem beneficia com o medo? O primeiro beneficiário é sempre o poder, que prefere que nos sintamos inseguros e que procuremos segurança, porque quem nos dá a segurança é esse mesmo poder que nos atemoriza. Mas essa segurança quer que renunciemos à nossa liberdade e creio que nos últimos anos isto é algo que temos visto continuamente.
Por exemplo?
Por exemplo em tudo o que está relacionado com o terrorismo internacional, estamos assustados e queremos que nos protejam e renunciamos aos nossos direitos e liberdades a troco da nossa protecção.
E quase não fazemos perguntas…
Claro. E aceitamos formas de controlo, de vigilância, de perseguição que não aceitaríamos se não estivéssemos assustados. É aqui que o poder se vê.
E os meios de comunicação? Qual está a ser o seu papel nesta ideologia do medo? Contribuem para a difusão do medo?
Sim. Os meios de comunicação não fabricam o medo…
Não directamente, mas…
Mas propagam-no, difundem-no. Penso que os meios de comunicação têm um papel na hora de construir esses relatos do medo, essas histórias, com as quais nos sentimos identificados. Os meios de comunicação, sobretudo em Espanha, transformaram-se em jornalismo de crime, de violência. Conseguiram criar uma imagem muito distorcida da realidade, que faz com que os cidadãos não sejam capazes de fazer um cálculo de probabilidade das coisas que podem ou não acontecer. Há determinadas acções violentas que podem ocorrer, e que ocorrem, mas há outras que são muito improváveis que nos aconteçam, só que ficamos com a ideia que nos vão acontecer a qualquer momento, através da repetição com que são relatadas…
Que criam a tal sensação de insegurança…
Sim, claro. A nossa sensação de insegurança aumenta muito mais. Isso é algo que conhecemos, a insegurança subjectiva. Não tem que ver com a segurança objectiva. Há cidades que objectivamente não são inseguras, em que não existe uma especial criminalidade ou violência e provoca nos cidadãos dessa cidade uma falsa sensação de insegurança. Essa insegurança subjectiva é alimentada em grande parte pelos meios de comunicação.
Há em Espanha um particular desinteresse por este tipo de literatura interventiva? Neste mundo em constante mudança, cada vez mais rápido, as pessoas não param para pensar? Debater?
Penso que sim. Há uma literatura de evasão, de escapar da realidade, que é a que está em maioria e no fundo é preferível à literatura política. E no fundo essa literatura também é política. Provoca no leitor essa conformidade, passividade…
Distracção…
Sim, distrai, faz com que não questiones determinadas coisas. Evita que sejas crítico ao mesmo tempo que te ajuda a suportar o mundo em que vives. Então essa literatura é tão política ou mais do que aquela que contesta essa realidade. Essa literatura é e foi sempre maioritária.
É essa literatura importante?
Penso que há espaço para as duas. Não sou contra uma literatura de entretenimento. Há romances em que te podes rir e ter uma postura crítica, não tem de ser necessariamente numa literatura de intervenção, política. Ao mesmo tempo, esta literatura de intervenção não tem de ser sinónimo de seriedade, de aborrecimento, de concentração.
E a título pessoal?
Essa literatura excessivamente superficial não me interessa. Vai ter sempre o seu lugar e quem recorra a ela mas pessoalmente não me interessa.
Quais os estilos que gosta mais na Literatura?
Como leitor interessa-me o mesmo tipo de literatura que enquanto escritor. Gosto de uma literatura que podemos chamar de exigente, mas não tem de ser necessariamente difícil. Não me refiro a ser formalmente escura, difícil, experimental. Gosto de um tipo de literatura que de alguma se identifique com o leitor, em que o autor saiba que do outro lado do livro há um leitor inteligente. Gosto de uma literatura que reconheça a inteligência do autor e conta com ela. Há muitos livros que eu, enquanto leitor, penso que os seus autores me consideram tolo, idiota (risos). Esse tipo de livros não me interessa. Uma literatura com um nível mínimo de exigência pode encontrar-se num variado tipo de estilos e temas: pode haver um romance histórico muito exigente ou muito artificial, romance político muito interessante, que conta com o leitor, ou muito superficial.
Em que momento o Isaac decidiu começar a escrever? Qual o momento em que recorreu à Literatura para lançar estes debates?
Eu estudei jornalismo e, de alguma maneira, descobri o poder da palavra, o poder da palavra escrita, a capacidade que a palavra tem, se não para mudar o mundo, para intervir. A partir daí comecei a interessar-me pela escrita. Depois pensei nas capacidades que a ficção e os romances teriam para abrir esses debates. A minha motivação, o meu objectivo como escritor não é passar à história da literatura, ter uma obra-prima ou ganhar o Prémio Nobel. Nada disso. Interessa-me a literatura do momento, do meu tempo, dos meus leitores..
De intervenção…
De intervenção, como se diz. Desde os meus primeiros livros.
Falando na Literatura de momento, qual a sua opinião em relação ao e-book? No passado dia 12 (de Fevereiro) a ministra da cultura de Espanha, Ángeles González-Sinde, afirmou que a publicação de livros digitais no seu país aumentou 35% em 2009, em relação a 2008.
O livro electrónico sobe muito porque vem de muito baixo. É normal que em cada ano multiplique por 30 o número de pedidos. Creio que em Espanha ainda estamos numa fase muito primitiva e há ainda um discurso de medo por parte das editoras, que afirmam que o livro electrónico vai acabar com o livro de papel…
Pensa que isso irá acontecer?
Creio que não.
Serão convergentes?
Sim, penso que sim. Há um tipo de livros que já circulavam na Internet como os dicionários, livros técnicos, enciclopédias, que têm o seu formato electrónico. Mas penso que os livros de ficção, poesia, romances, vão continuar a existir em papel, apesar de haver quem os queira ler no formato electrónico. Em qualquer caso não creio que vá afectar os autores, pode afectar-nos economicamente, é evidente, mas não afectará a nossa escrita, a nossa relação com os leitores. E penso que alguns desses medos, desses discursos apocalípticos têm que ver com a indústria editorial, com os editores, não com os escritores.
Em relação à literatura portuguesa, tem acompanhado? Tem algum autor como referência?
Bem, da literatura portuguesa conheço essencialmente os autores que se publicam em Espanha, supostamente os mais conhecidos como Saramago, Lobo Antunes, José Luís Peixoto, que é um autor que me interessa muito, e sempre me interessaram também poetas portugueses. Fui bastante amigo de um poeta espanhol que era tradutor de poetas portugueses, o Ángel Campos, que me deu a conhecer poetas como Eugénio de Andrade, por exemplo, que é um dos meus poetas preferidos. Leio mais poetas do que romancistas. Mas reconheço que em Espanha, infelizmente, publica-se pouca literatura portuguesa.
Está a escrever algum livro no momento?
Sim, estou a escrever um romance onde exploro o tema do trabalho.
Que é, segundo o Isaac, outro tema pouco retratado pelos autores espanhóis. Porquê?
São dois dos temas que me interessam como escritor e que não estão presentes na literatura em Espanha: o trabalho e o dinheiro. E isso tem que ver com a tal literatura light, uma literatura que evita o conflito. Para mim, os temas mais interessantes são esses. Ainda por cima em Espanha, com a crise em que está. O trabalho e o dinheiro são os mais fundamentais na vida de qualquer pessoa. E não lemos nada disso nos livros, sobre a vida laboral, sobre o dinheiro, que regem a nossa vida.
