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  • 09 de Fevereiro, 2012
HOME ENTREVISTAS MICHAEL GREENBERG: 'TIVE MOMENTOS ONDE ME QUESTIONEI SE A ‘ANTIGA’ SALLY VOLTARIA'
Michael Greenberg

Michael Greenberg: 'Tive momentos onde me questionei se a ‘antiga’ Sally voltaria'

Aos 15 anos, e sem que nada o fizesse prever, Sally enlouqueceu. ‘Até ao Amanhecer’ é o livro que Michael Greenberg, pai de Sally, escreveu, dez anos depois, no qual retrata aquela ‘repentina e estrondosa tempestade’ que atingiu toda a família. Michael Greenberg falou com o Cultura Online.


Foi um grande desafio para si escrever sobre a saúde mental?

O meu maior desafio foi escrever sobre aquele verão, da psicose da minha filha, dez anos mais tarde, como se isso estivesse a acontecer neste momento – recriar esse Verão em todos os seus aspectos mais surpreendentes. Para todos nós – a Sally e todos aqueles que a rodeavam – foi como se tivéssemos sido atingidos por uma repentina e poderosa tempestade. A psicose continua a ser um grande mistério. O meu desafio foi escrever sobre o efeito que provocou em todos nós, na sua família e como sobrevivemos. Daí falar em vários estados mentais e não apenas no da Sally.

O que o levou a escrever este livro? Foi uma tentativa de perceber o que realmente aconteceu naquele Verão?
Quando enfrentámos este problema naquele Verão, gostava de ter tido um livro como este para ler, mas não existia nenhum. Queria perceber o que aconteceu, o que fazia sentido, claro. Mas mais do que isso, com este livro, eu quis oferecer um sentido de companheirismo àqueles que passam pela mesma situação que eu em relação a um ente querido. Queria explicar-lhes que não estão sozinhos.

O leitor poderá pensar que se trata de um livro triste. Mas ao mesmo tempo o Michael consegue despertar uma enorme curiosidade. A saúde mental é um tema interessante para ser tratado na literatura?
A loucura, o amor e a morte são os nossos grandes temas e são-no desde os tempos das tragédias gregas. Foi fantástico escrever sobre um assunto tão antigo e espectacular e poder fazê-lo de uma perspectiva tão íntima. Não acho que se trate de um livro triste. A depressão maníaca e a esquizofrenia estiveram sempre connosco. Fazem parte de nós como seres humanos, são um espelho do que somos nos nossos estados extremos de entusiasmo ou depressão, estados que nós conhecemos, mas de uma forma moderada. A Sally não é uma pessoa trágica mas heróica de certa maneira: ela viajou para um ‘país’ que poucos de nós visitámos. Um ‘país’ para o qual ela não iria se tivesse tido escolha. Houve muito sofrimento nessa viagem, mas também há muito a aprender.

Sentiu essa curiosidade de compreender e explicar o que acontece na mente humana?
O que realmente descobri é que a depressão maníaca (ou bipolar, como é usual ser chamada), permanece envolta em mistério. Os psiquiatras e os neurologistas são os primeiros a admiti-lo. O que mais me interessou foi mostrar o que acontece numa família em crise, as emoções, a crueza honesta e os momentos de grande beleza também. Afinal de contas, a vida é mesmo isto e não a ‘química cerebral’.

Na adolescência os pais estão, por assim dizer, preparados para lidar com situações como o uso de drogas, os namorados, o sexo, mudanças de comportamentos, mas não esperam ter de lidar com este tipo de problema. O que sentiu quando os médicos lhe disseram que a sua filha era uma doente bipolar?
A minha primeira reacção foi: “Como pode dizer uma coisa dessas? Nem conhece a minha filha!”. A minha esperança foi que ela tivesse tomado uma qualquer droga pois, por mais que isso fosse problemático para um pai, era temporário. Não se tratava disso, claro. Temi pelo seu futuro e pela sua vida. Como iria ser? O quão grave seria esta doença? Ainda havia muito por descobrir.

No início do livro o Michael parece um pouco pessimista. Chagou a pensar que aquela era uma situação irreversível?
Na primeira parte do livro eu descrevi a minha completa e absoluta estupefacção ao ver a minha filha afastar-se de mim sem qualquer aviso prévio. (Mais tarde percebi que os avisos existiram. Mas eu falhei ao não os ver, ao acreditar que se tratavam apenas da expressão de comportamentos típicos da adolescência. Ela tinha 15 anos). De início, foi-me impossível aceitar – ou mesmo compreender – que eu poderia falar mais facilmente com um completo estranho do que com a minha própria filha. Foi comigo que ela aprendeu a falar, foi comigo que ela aprendeu as primeiras histórias. E de repente, de um dia para o outro, tornámo-nos estranhos. A minha descrição dessa fase pode parecer pessimista, mas penso que retratava acima de tudo a minha estupefacção, um sentimento de medo e também de desespero.

Numa tentativa de perceber o que se passava na cabeça da Sally, um dia tomou os seus comprimidos. Foi um acto de desespero, uma última oportunidade de compreender o que se estava a passar?
O meu grande desejo era trazer de volta a filha que eu conheci – para regressarmos à nossa conversa pré-depressão. Após cinco semanas isto ainda não tinha acontecido. Então decidi tentar compreender o estado em que ela estava, ir ao seu encontro e ver o mundo como ela o via. Foi um acto de frustração e amor.

A certa altura o leitor tem a sensação de não ser o pai da Sally quem está a escrever o livro. Este distanciamento permitiu-lhe escrever um livro menos emotivo? E mais duro? Factual?
Esperei dez anos para escrever este livro. E esse tempo foi crucial. Deu-me a distância essencial para ‘universalizar’ a experiência, para escrever um livro que pudesse tocar os outros. Um certo distanciamento é essencial para tratar este assunto. Se fores muito emotivo, corres o risco de o leitor se desinteressar. Tentei manter só as emoções importantes para o livro.

Diz que o seu primeiro pensamento foi culpar-se pelo que aconteceu. Não é esse um sentimento impossível de controlar quando um filho se mete num qualquer problema?
O primeiro impulso de um pai é sempre culpar-se. Procuras uma causa. Houve momentos em que eu queria ser responsável pelo que estava a acontecer com a Sally, porque pelo menos dessa forma eu teria uma explicação.

Em algum momento pensou que a Sally não voltaria a ser a mesma? 
Tive alguns momentos, inicialmente, onde me questionei se a ‘antiga’ Sally alguma vez voltaria. Mas no fundo eu sempre acreditei que sim.

Enquanto escrevia a história da Sally estava continuamente a estabelecer uma comparação com a história do Michael, especialmente no que diz respeito à doença mental do seu irmão Steve. Temeu que a Sally acabasse como ele, dependente de alguém para o resto da vida?
Esse era um grande medo meu, que a Sally fosse como o meu irmão Steve, escondido do mundo, sem amigos, sem uma profissão, ou uma vida que a fizesse feliz. Mas a Sally é tão diferente do Steve, na maneira de ser, na personalidade, que acabei por perceber que não iria ter o mesmo destino do Steve. A personalidade de uma pessoa é tão importante nos doentes mentais como em qualquer outra pessoa.

Tentou esconder o estado da Sally dos vizinhos. Temia as suas reacções?
Tive medo que as pessoas pensassem mal da minha filha, que a estigmatizassem, e que me estigmatizassem por ser pai dela. Temi que ao tomarem conhecimento do seu estado de saúde a passassem a ver PARA SEMPRE como uma doente mental e nada mais. Foi a própria Sally que me disse para parar de esconder a sua doença. O stress de esconder a doença dos seus amigos, do resto da família, era maior do que o risco de ser estigmatizada. Ela estava certa. Ela ensinou-me muitas coisas.

Na sua opinião, ainda há muito preconceito em relação a este tipo de doença?
Sim. As pessoas têm um enorme medo da loucura. É um assunto envolto em mitos, mistérios e preconceitos.

O Michael escreveu: “A Sally modificou completamente a visão que eu tinha do mundo.”. Pensa que este é o tipo de situações que muda para sempre toda a família?
A Sally provocou uma enorme transformação em todos nós. Falando no meu caso, ela deu-me um sentido de fragilidade das nossas mais próximas e íntimas relações. E quão preciosas são.

No livro estabelece uma ligação entre a loucura, a genialidade e a criatividade. Pensa que as três estão interligadas a tal ponto de a determinada altura ser impossível distingui-las? A Sally dizia muitas vezes que todos nós éramos génios…
Existiram muitos génios maníaco-depressivos: Van Gogh, Schumann, Byron, dezenas de artistas. A loucura manifesta-se com uma grande facilidade na linguagem, e traz consigo uma enorme fluidez e visão no início da sua fase mais sedutora. Mas há o perigo de romantizar a doença mental, de fazer com que pareça atraente e ‘estética’. Tentei evitar isso.

O Michael deu alguns exemplos de pessoas que também tiveram distúrbios mentais, como Lucia, a filha de James Joyce, e Robert Lowell. Foram uma ajuda importante para escrever sobre a doença mental e para perceber a situação em que estava? Embora tenham tido diferentes ‘fins’ do da Sally…
Forneceram-me exemplos, procedimentos. Podia olhar para eles e saber que eles também percorreram este caminho. Deram-me a sua experiência, com dignidade.

Pensa que ainda há muito a descobrir sobre a mente humana?
Há uma quantidade tremenda de coisas por descobrir. Conhecemos muito pouco sobre a mente humana, apesar dos grandes avanços da ciência nos últimos vinte anos. Os grandes avanços têm sido feitos na tentativa de compreensão da memória, como ela funciona e de que forma a podemos perder. Mas os mais profundos e subjacentes mistérios do cérebro - a inconsciência, a consciência, a sanidade mental, loucura, amor e as paixões básicas - estes territórios permanecem desconhecidos para ciência.

O livro não tem, por assim dizer, um final feliz. Trata-se de um reflexo do estado de saúde mental da Sally? ‘Controlado’ mas imprevisível? Uma luta diária e para o resto da vida?
Como referi anteriormente, não penso na situação da Sally como algo triste ou trágico. Ela tem gratificantes períodos de remissão quando não está doente. Ela tem agora 28 anos e é uma mulher linda, uma amiga valiosa e uma filha fantástica. Claro que ela é uma doente maníaco-depressiva e trata-se de uma doença crónica, não se evapora de um dia para o outro. Seria falso da minha parte se sugerisse o contrário. Ela continua a aprender a viver com o seu destino, a enfrentá-lo e a não se deixar vencer por ele. Ela é uma pessoa inspiradora.

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