A Fundação Calouste Gulbenkian em Paris inaugura hoje a primeira exposição "representativa" da obra da pintora Paula Rego, em França, com trabalhos desenvolvidos entre 1988 e 2009, de "A família" à "Mulher cão".
A exposição, composta por cerca de 30 pinturas, gravuras e desenhos, não é retrospetiva e foge à ordem cronológica da criação das obras, disse à agência Lusa Helena de Freitas, diretora da Fundação Paula Rego/Casa das Histórias, co-organizadora da iniciativa.
"Escolhemos um formato que põe em relevo um período que corresponde a uma grande maturidade do trabalho artístico da Paula Rego e que coincide com o reconhecimento internacional da sua força e originalidade", afirmou.
Os trabalhos vão ficar expostos na nova sede da Fundação, em França, até ao dia 01 de abril. Helena de Freitas considerou que "esta vai ser uma grande oportunidade para Paris olhar para Paula Rego e compreender a sua obra: "É uma exposição forte, a que ninguém poderá ficar indiferente. O espaço não é grande e as obras são densas, fortes, bonitas", disse.
O percurso começa com a obra "A família" (1988), que desenha uma mulher, mãe e duas filhas, na tentativa de reanimarem "a todo o custo" o marido, pai. A diretora explica que esse trabalho, feito depois de 1986, ano que os críticos apontam como o da "fratura mais evidente" no trabalho da autora, depois da morte do seu marido, Victor Willing, "inicia a alteração da sensação de representação plástica de Paula Rego".
Essa "mudança radical" é também ilustrada na série "A menina e o cão", construída a partir dessa data, que, explicou Helena de Freitas, "exprime, de forma alegórica, a fase final da doença do seu marido, transpondo, na representação das duas figuras, a humana e a animal, uma coreografia de gestos quotidianos de dependência física e de violência psicológica".
"É uma exposição que, de alguma forma, entra no campo das emoções. Todo o potencial emocional está muito presente", acrescentou.
Um pilar central destes "núcleos temáticos e séries" que compõem a exposição é o "Anjo" (1998), a mulher que segura com uma mão a espada, com a outra uma esponja, "os símbolos da paixão". Helena de Freitas considera a obra "fundamental" porque "ela transporta os símbolos do sofrimento da paixão" e sublinha a "dualidade, muito importante no trabalho da autora".
O percurso termina -- "ou pode começar" -- com a "Mulher cão" (1994), "uma série muito forte, que também tem que ver com a paixão e com relações emocionais e que expõe o lado animal da mulher na relação com o amor".
Na verdade, a diretora encontra antes um fim n'"O Pillowman" (2004), "obra poderosíssima, muito complexa, que incorpora já a questão dos modelos e muitas memórias de Portugal".
Fonte: DN