O trabalho de João Paulo Feliciano, apresentado hoje no Porto, que graças à realidade aumentada coloca várias pinturas nas paredes da Casa de Serralves, provocou uma série de manifestações indignadas nas redes sociais.
A ilusão era para ser presencial: aponta-se o telefone ou o tablete para a casa que o Conde de Vizela mandou construir, que hoje é a sede da Fundação de Serralves, e sobre as paredes cor-de-rosa começam a aparecer dizeres tão absurdos como "vende-se" com o respetivo número de telefone, "kalinka" ou uns coloridos "cash" e "muda de vida".
Mas imagem da simulação da exposição que reproduzia estes dizeres acabou por transpirar para as redes sociais e foi num instante até crescerem os comentários, condenando os "vândalos" que haviam feito estas "pichagens" num imóvel classificado de "interesse público". Mesmo quando a discussão se atenuou, seguiu-se uma outra sobre o que eram os "grafittis" e a sua validade enquanto obra de arte.
"A imagem acabou por ser muito mais realista do que a experiência de estar com o tablete lá fora a apontar para a casa, porque nessa altura as pessoas já sabem a história toda", afirmou o artista João Paulo Feliciano que se mostrou "absolutamente espantado pela quantidade de comentários" nas redes sociais.
"As pessoas não se dão sequer ao trabalho de ver aquilo para que estão a olhar", afirmou, considerando que a discussão acabou por se tornar "num bónus" em relação ao projeto apresentado na quarta-feira.
O projeto designado "Walls to the people" foi possível graças a uma parceria entre a Fundação de Serralves e a Samsung, uma empresa fabricante de telefones e de material informático, que disponibilizou a tecnologia para que João Paulo Feliciano pudesse trabalhar
"Esta não é uma peça sobre 'grafitti art', é mais uma peça sobre a capacidade quase espontânea que as pessoas têm de comunicar usando o espaço público, seja de uma forma requintada e artisticamente consciente, como há imensos exemplos de 'graffiti art', seja de uma forma quase 'naif' e quase inepta dos cartazes do 'há chouriço' e 'vende-se pão'", afirmou João Paulo Feliciano.
O artista conhecido também pelas suas incursões no mundo da música, enquanto elemento, por exemplo do Tina and the Top Tem, afirmou que não se sentiu particularmente "entusiasmado com a ideia, por si, de utilizar tecnologia".
"Para mim é tão natural usar um lápis e um papel como usar uma tecnologia mais sofisticada, desde que eu a consiga dominar ou tenha comigo alguém que o faça", garantiu João Paulo Feliciano, acrescentando que "tem muitas dúvidas que para os artistas as novas tecnologias sejam o garante do que quer que seja. São uma ferramenta como as outras".
"Aquilo que eu sobrepus na Casa de Serralves graças à realidade aumentada é conscientemente horrível, feio, estúpido, parvo, absurdo, idiota", afirmou João Paulo Feliciano que, dessa forma, se tentou adaptar a um recurso tecnológico que, em termos de imagem, não "é muito preciso".
Fonte: DN