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  • 21 de Maio, 2012
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A crise vista dos 9 anos

A crise vista aos 9 anos

Como é que se fala da infância no teatro sem crianças?



Como é que se conta o que elas pensam dos adultos sem as ter por perto? Há um ano, com a peça Bela Adormecida, para a Companhia Maior, Tiago Rodrigues serviu-se da velhice para falar do mundo. Desta vez, na sua nova peça, Tristeza e Alegria na Vida das Girafas (em cena hoje na Culturgest, em Lisboa), o encenador e dramaturgo quis «pensar a infância com uma série de artistas que não são crianças para falar artisticamente sobre o mundo», especialmente o dos adultos.

Porque o teatro não é uma arte «sobre credibilidade», mas sim «sobre partilhar ideias e propor personagens» (mesmo que as menos credíveis sejam as mais interessantes), esta é a história de uma menina de nove anos, demasiado alta para a sua idade, «recordista mundial de consumo do dicionário», pelo menos «lá em casa», e a quem «a mulher que era sua mãe» chamava de «girafa».

A menina, interpretada pela adulta Carla Galvão, embarca numa aventura ao estilo Alice no País das Maravilhas por Lisboa, depois de o pai, desempregado (Miguel Borges), não ter conseguido pagar a mensalidade do Discovery Channel, canal essencial para o trabalho de escola que está a fazer sobre girafas. A acompanhá-la está o seu urso de peluche (Tonán Quito), amigo imaginário, que solta palavrões de rajada, e representa, ao mesmo tempo, «o lado negro da criança e aquelas pessoas que estão sempre do contra e têm o discurso ‘eles são todos iguais’».

Nesta expedição pela capital, a menina, cujo nome nunca é revelado, cruza-se com várias personagens como um Velho e um Pantera Negra (ambos interpretados por Pedro Gil) e o dramaturgo russo Tchekhov (novamente Miguel Borges), até chegar ao seu destino final: o palácio de São Bento, onde descobre Pedro Passos Coelho (Pedro Gil), a única pessoa que ela pensa que a pode ajudar a recuperar o Discovery, Channel, supostamente a chave da sua felicidade.

Para Tiago_Rodrigues, esta infância pré-adolescente, «dos 9, 10, 11 anos, é um bom momento para pensar sobre o mundo», porque é nesta idade que se começa «a construí-lo e a entender as coisas de determinada maneira». Por isso, além da infância, Tristeza e Alegria na Vida das Girafas aborda questões actuais como a crise económica, o desemprego e a falta de dinheiro.

«Como tenho uma filha de dez anos, questiono-me muitas vezes como é que as crianças estão a viver a crise. Como é que elas entendem este ruído de fundo constante que traz palavrões como recessão ou austeridade», diz o encenador, sublinhando: «É normal um pai desligar a televisão se estiver a passar uma imagem violenta mas, se calhar, também devia desligar quando o ministro das Finanças aparece a comunicar que vai cortar salários, subsídios e comparticipações».


Fonte: SOL

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