• 20:08
  • 21 de Maio, 2012
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Graffiti: 'O factor surpresa e libertário deve manter-se'

Alexandre Farto e o Graffiti: 'O factor surpresa e libertário deve manter-se'

O Guardian escolheu uma obra de Alexandre Farto como um dos 10 melhores exemplos de street art mundial.



Aos 24 anos, um troféu numa arte transgressora. Numa lista de ‘Os dez melhores’, encomendada a um crítico de prestígio e divulgada por jornais estrangeiros respeitáveis, é pouco comum haver um português. Houve uma excepção na semana passada. Tristan Marco, designer e conferencista convidado por instituições como a Tate Modern (em Londres), a pedido do Observer e do Guardian, seleccionou os ‘10 melhores trabalhos de street art’. Na lista figura uma peça de VHILS – o nome de guerra do português Alexandre Farto (n.1987). A peça em causa foi feita para o Cans Festival de Londres, em 2008. Na selecção consta ainda um prédio na Avenida Fontes Pereira de Melo, em Lisboa, pintado o ano passado pelos brasileiros OsGêmeos e pela crew (equipa) italiana Blu. O SOL entrevistou Alexandre Farto, dias após a nomeação:


Porque se interessou pela street art?
Cresci na Margem Sul, no Seixal, e desde pequeno que reparo bastante nas paredes, pinturas murais queimadas do Sol, e daí ao graffiti foi simples. Na altura, Portugal vivia grandes transformações que se reflectiam na rua – os murais pintados depois da revolução de 1974, que cobriam muitos muros e paredes públicas, contrastavam com a chegada da publicidade em massa, e isso afectou-me de forma consciente.


Quando começou a fazer graffiti?
Comecei a sério pelos 13 anos, através de amigos. Graffiti era algo para se fazer, para passar o tempo, em vez de ficar fechado em casa. De facto, não era preciso ter uma razão para o fazer, nessa altura nem era expressão artística, isso só veio muito mais tarde – era aventura, diversão, exploração. Depois comecei a pintar comboios e entrei a sério no train writing e bombing [pintura de grandes superfícies], primeiro nos subúrbios de Lisboa, e depois um pouco por todo o Portugal e Europa. O interesse pela arte surgiu muito mais tarde, pelos 18 anos. Foi o graffiti que me fez decidir seguir a via das artes na escola, porque era a única coisa com a qual me identificava em termos de trabalho. Mas posso dizer que o meu background e escola foi o graffiti, não só na pintura como na atitude de chegar à rua e reclamar o meu espaço sem estar dependente do circuito tradicional.


Porque estudou em Londres, na University of the Arts?
Porque em Portugal, para estudar artes, avaliam-te pela média, a todas as disciplinas, e não por avaliação de portfólio, ao contrário de Inglaterra. E por isso não tinha média para entrar em lado nenhum a não ser em escolas privadas. De maneira que, pagar por pagar, decidi ir para Londres. Claro que não foi a opção mais fácil, mas valeu a pena.


Quando começou o seu trabalho inspirou-se em quem?

Influências houve muitas, principalmente de writters [autores] e crews [equipas] de Lisboa. Mais tarde fui influenciado por artistas ligados à chamada street art como Banksy, que alterou muito a percepção que eu tinha do que era possível fazer na rua... Mas admiro muito também o Blu, OsGêmeos e outros artistas como Gordon Matta Clark, Catherine Gross, Marcelo Cidade, etc...


Começou numa altura em que a street art era vista como actividade criminosa. De que modo isso o condicionou, ou não?
E ainda é ilegal e assim o deve ser. Deve haver alternativa, espaços legais etc., mas o factor surpresa e libertário que o movimento tem deve ser mantido, porque o impacto da peça ou mensagem não é o mesmo de quando estamos à espera de a ver. Nunca me condicionou até hoje e acho que cada vez mais se deve olhar para o espaço público da cidade como um espaço para ser utilizado e não para ser um espaço que nos utiliza. Estéril e cinzento que só favorece a publicidade e não a humanização.


O que acha desta nova importância da street art e de uma série de nomes que agora são promovidos como ‘verdadeiros artistas’, passe a expressão?
Apesar de ainda ser ignorado pela maioria das galerias de arte e instituições, principalmente em Portugal, acredito que isso seja resultado de um fosso geracional. Esta nova esfera de criação, quer seja designada como street art, urban art, graffiti, é um movimento cujo principal público e praticantes estão na faixa etária dos 15 aos 35, que ainda não está nos cargos de chefia, nem tem o poder de compra para suportar a sua afirmação. E a verdade é que esta linguagem visual, para além da sua presença na rua, também tem conseguido ser trabalhada em galerias para as quais tem trazido um novo público.


E atrai massas?
Exemplo disso foi a exposição de Banksy no Bristol Museum of Art, que atraiu 50 mil pessoas num mês, enquanto a de Rauschenberg teve 80 mil visitantes em três meses. Ou em todas as VSP [visual street performance] que temos organizado em Lisboa nos últimos cinco anos, em que as inaugurações conseguem reunir mais de mil pessoas e maioritariamente um público novo. A verdade é que esta é uma arte nova, contemporânea e acessível, que não é apenas dirigida a uma elite que tem os meios para a descodificar e o dinheiro para a suportar; uma arte que vive essencialmente da comunicação com as pessoas, independentemente de quem sejam.


Como passou a ser convidado para trabalhos em todo o mundo?
Conheci bastantes artistas estrangeiros que vinham a Lisboa pintar. Quando cheguei a Londres já tinha alguns contactos que aprofundei. Quando fui convidado a participar no Cans Festival [organizado por Banksy], em 2008, a exposição que isso deu ao meu trabalho foi muito boa. Mudei-me para Londres para estudar e procurar novas oportunidades. Comecei a trabalhar com a Pictures On Walls e fui convidado a integrar a Lazarides Gallery, com quem tenho estado a desenvolver trabalho, em vários pontos do mundo, desde então. Londres é uma cidade que me atrai pelo lado mais caótico, que ainda conserva no meio daquela organização toda. É ainda uma cidade de contrastes e um gigantesco melting pot.


Acha que tem um estilo especial? Quais são as suas preocupações estéticas, políticas?
O que faço é produto de tudo o que interagiu comigo desde que nasci. Preocupações são muitas; esta é uma pergunta que merecia uma resposta mais detalhada, mas é essencialmente um trabalho que tenta expor/confrontar/questionar realidades nestas selvas de betão em que vivemos. Isto sem nunca de facto procurar oferecer soluções para estes conflitos, procurando sim gerar um processo crítico no espectador, fazendo-o questionar por si mesmo, através da justaposição/fricção, em que a mensagem acaba por ser, muitas vezes, esse processo em si mesmo. A arte de rua é perecível... Interessa-me muito o carácter efémero e transitório das coisas; a efemeridade que eu vi quando crescia, nas ruas, na publicidade, nos murais do 25 de Abril serem ultrapassados pelo tempo, no graffiti, na transformação e desenvolvimento, nas mudanças, tão visíveis na arena pública, no meio urbano. O confronto entre o glamour do novo e a decadência do velho. Toda esta natureza efémera visível na rua diz muito sobre o estado e vivência das pessoas num determinado momento e tento de alguma forma trazer isso para o meu trabalho.


Veria o seu trabalho consagrado num museu?

Não sei se lhe chamaria consagrado, mas já tive vários trabalhos em Museus, como por exemplo: o MACE–Museu de Arte Contemporânea de Elvas, o MCASD–Museum of Contemporary Art de San Diego, Wallsall Museum, no Reino Unido, etc....


Que trabalhos está a fazer?
Terminei agora uma monografia que vai ser lançada pela editora alemã Gestalten. Estou a preparar uma série de exposições individuais para 2012 em Shangai, Lisboa, Berlim e Londres.


Onde reside actualmente?

Para ser sincero, não sei. Mas onde estou mais tempo é em Lisboa e em Londres.


A sua actividade de artista paga as contas?
Sou como todos: às vezes artista, às vezes taxista e, de vez em quando, malabarista.

Fonte: Sol

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