Theatro Circo Theatro Circo O Theatro Circo é uma centenária e emblemática casa de espectáculos, em Braga. Por meio das respostas que nos foram dadas pela Directora Financeira do Teatro Circo, Daniela Queirós, ficamos a conhecer um pouco mais sobre este espaço único.

-  Daniela, o que é torna o Theatro Circo num espaço singular, no contexto cultural da região?

Antes de mais agradeço o convite que me foi dirigido para falar de um local que me é tão querido e de uma realidade que conheço bem, apesar de a minha área de trabalho ser a gestão e não a programação.

O Theatro Circo é um espaço cultural incontornável: da cidade, do Minho, do Norte e até mesmo do país. Para começar, há muito poucas salas de espectáculos na região que sejam simultaneamente espaços de programação própria, com um director artístico nos seus quadros que encabeça as escolhas programáticas, orientadas para a prestação de um serviço público. Aqui perto, e excluindo o Porto, estou a lembrar-me de apenas mais duas estruturas: o CCVF de Guimarães e a Casa das Artes de Famalicão. De qualquer forma cada uma tem as suas singularidades e acabamos por ser espaços complementares mais do que concorrentes, ideia reforçada pelo facto de estarmos envolvidos em projectos comuns, como é o caso do Cartão Quadrilátero. Para além disso o Theatro Circo é um espaço belíssimo, centenário, recentemente integrado na Rede Europeia de Teatros Históricos (só há quatro no país), completamente restaurado e reequipado com tecnologias avançadas num total respeito pela sua traça e memória e numa simbiose perfeita entre clássico e contemporâneo. Eu diria que não há outro, a nível nacional, que se lhe compare.

- Quais são os grandes desafios e oportunidades que o Theatro Circo encontra, actualmente?

O Theatro Circo passou por um período muito conturbado devido à incerteza causada em relação à sua continuidade enquanto empresa. Esse, do meu ponto de vista, era o maior desafio que o TC enfrentava desde 2012, ano em que foi produzida legislação que visava a extinção de empresas municipais que não cumprissem determinados rácios financeiros, independentemente do sector em que operavam. Felizmente a lei foi alterada e o assunto está finalmente resolvido, permitindo-nos concentrar em actividades que acrescentem valor para a comunidade. Encerrado este capítulo, penso que o maior desafio que o Theatro enfrenta actualmente é o de manter o nível de atractividade e de público que conquistou nos últimos anos. O TC passou de cerca de 60 mil espectadores, média que se mantinha estável desde a reabertura em 2006, para mais de 90 mil em 2014, tendo em 2015, ano da comemoração do seu centenário, ultrapassado a barreira dos cem mil, algo impensável há uns anos atrás. Isto foi conseguido obviamente com um orçamento um pouco mais alargado mas foi o empenho, a motivação e uma visão clara do caminho a seguir os factores mais determinantes para este sucesso. Assim diria que gerir expectativas que se elevaram para um novo patamar é o nosso maior desafio diário. As oportunidades são inúmeras, basta estarmos atentos, criarmos as sinergias certas e sabermos aproveitá-las. Desde logo a candidatura de Braga a Cidade Criativa da Unesco na área das Media Arts, que será efectivada nestes próximos meses. É uma aposta estratégia deste executivo, coordenada pela Administradora Executiva do Theatro e, a meu ver, muito inteligente, pois alia o conceito de cultura e arte urbana com a tecnologia e o mundo digital, áreas onde a cidade tem um enorme potencial. Outra oportunidade que encontro é o aumento do turismo, que extravasa o meramente religioso, e nos abre novas perspectivas para atracção de outros públicos, seja para eventos ou para visitas guiadas. Para além disso Braga tem crescido e está cada vez mais atractiva; é jovem, tendencialmente mais escolarizada e com maior sentido crítico, e por isso mesmo mais atenta e exigente, o que nos incita a fazer mais e melhor.

- A programação do Theatro Circo é dirigida a todos os " bolsos” e estratos sociais?

Sem dúvida. Por ser o único espaço da cidade com estas características tem obrigatoriamente de comportar essa diversidade e ser um local acessível e atractivo a todos os públicos, tanto em termos de faixa etária como de condição económica. Assim, se é possível assistires no TC a um bailado ou a uma ópera, cujo bilhete inteiro rondará os 30€, também podes vir ver os Coffee Or Not, no dia 8 de Março, por 8€, uma sessão de Cinema custa apenas 3,5€, as visitas guiadas têm preços simbólicos e todas as exposições que fizemos até ao momento foram gratuitas. E a acrescer, os portadores de Cartão Quadrilátero têm um desconto de 50% sobre a nossa programação própria, assim como nos espaços CCVF, Casa das Artes e TGV de Barcelos, para além dos descontos habituais para camadas específicas da população. Eu diria que não é por causa do preço dos bilhetes que alguém deixará de usufruir do nosso espaço.

-  E tem alguma preocupação e dedicação à formação cultural de crianças e jovens?

Esse é justamente um dos principais enfoques este ano. Desde sempre o TC tem dirigido parte da sua programação ao público infanto-juvenil, como é o caso do teatro para escolas e das mostras de teatro escolar. E nos últimos anos tem reforçado a formação de públicos nesta área, com oficinas para os mais jovens na Páscoa e no Natal e com o ciclo Música para Uma Plateia de Palmo e Meio, dirigida a bebés e aos seus pais. O ano passado fizemos pela primeira vez o Dormir É Um Espectáculo, iniciativa em que um grupo de crianças dormiu no Salão Nobre e pode realizar diversas actividades pedagógicas relacionadas com o Theatro. As crianças adoraram e é uma experiência que tencionamos repetir em 2017. Assim, após um conjunto de projectos bem sucedidos nos últimos anos, estão lançadas as bases para estruturar um verdadeiro serviço educativo no Theatro Circo, o que implica desde logo outro nível de investimento e de recursos. Há um provérbio chinês que diz que "se os teus projetos forem para um ano, semeia o grão; se forem para dez anos, planta uma árvore; se forem para cem, educa o povo." Pois nós queremos justamente trabalhar para o próximo centenário e como os nossos planos são a longo prazo temos de apostar na formação – dos mais jovens mas também dos menos jovens.

- Há algum evento ou eventos que possas destacar na programação deste ano do Theatro Circo?

Este ano o cartaz vai surpreender. Destacaria, desde logo, os The Divine Comedy no dia 3 de Fevereiro. Os bilhetes estão esgotados há meses e o concerto promete ser marcante, com casa cheia e ambiente de anseio e expectativa. Vamos ter a Luísa Sobral, no Dia dos Namorados. É um presente excelente para oferecer à cara-metade e usufruir também, pelo que deixo desde já a sugestão. Quem gosta de Rodrigo Leão não pode perder o concerto de 11 de Março, com o Scott Matthew. Habituámo-nos a ouvir Rodrigo Leão ao som de vozes femininas mas o Scott Matthew tem uma voz incrível, transmite uma grande intensidade em palco e tenho a certeza de que vai arrebatar. Há outros nomes mas estão no segredo dos deuses. A programação só está aberta até Março e alguns ainda não estão confirmados por isso não me posso adiantar… Mas este ano promete! Estamos a vender muito bem, o que é sempre um excelente indicador, principalmente quando se tem um cartaz de qualidade.

- E Braga? Consideras que é uma cidade com uma boa oferta cultural? Dispõe de equipamentos culturais adequados à sua dimensão?

Como cidadã diria que sim, tendo em conta a dimensão da cidade. Braga tem, por exemplo, muito bons auditórios mas alguns deles, na minha opinião, estão subaproveitados. Às vezes não é tanto o que se tem mas o que se faz com aquilo que se tem.  

- Em tempo de dificuldades económicas, a cultura é uma prioridade?

A cultura não é uma prioridade: nem para os Governos nem para o cidadão comum, independentemente das dificuldades económicas. Essa é a grande verdade, infelizmente. E o nosso papel aqui também é combater esse processo mental e lembrar a todos – Governo, cidadãos e até nós próprios – da sua importância para o nosso desenvolvimento pessoal e memória colectiva.

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As respostas dadas pela entrevistada traduzem a sua visão pessoal sobre as diversas matérias. Por opção da própria, este texto não foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.