Conceição Sapateiro Se pudesse fazia a paz com as minhas mãos
Acerca do Evento Nome
Conceição Sapateiro
Data
Local do evento
Barcelos
Detalhe do Evento Valor do Bilhete
A partir de €
Distrito
Braga
Concelho
Barcelos
Conceição Sapateiro

Conceição Sapateiro | Se pudesse fazia a paz com as minhas mãos

Conceição Sapateiro (n. 1952, Galegos de Santa Maria, Barcelos) cresceu num contexto muito marcado pela identidade artística de Barcelos. Filha de uma barrista e de um sapateiro, conta que a sua mãe, assim como os avós maternos, operários do barro, faziam parte de gerações distintas que percorriam as feiras de ano e que, assim, notabilizaram o nome das louças de Barcelos. Lembra-se da sua bisavó a trabalhar à roda como os homens. "Ela puxava e aparelhava o barro, começava e acabava a peça na roda". Dos tempos de criança recorda ainda as "disputas" entre os irmãos para ver quem melhor fazia as pitinhas ou outras figuras. Olhando em retrospectiva, conclui: "Tinha mesmo de ser artesã, ou sapateira ou barrista…”

 

Casa aos 23 anos e emigra para a vizinha Galiza, onde permanece por 20 anos e onde nascem os quatro filhos. Não perdeu, contudo, o contacto com o barro, uma vez que ali sempre trabalhou em fábricas de porcelana e cerâmica. Nos tempos livres libertava a sua imaginação e criava peças que, posteriormente, oferecia aos seus filhos, a familiares e vizinhos.

 

Aos 43 anos regressa em definitivo a Portugal, radica-se em Areias S. Vicente e começa a criar peças. Rapidamente ganha espaço no contexto do figurado de Barcelos. As suas peças de tom arrojado, coloridas e robustas chamam a atenção dos colecionadores e dos apreciadores do figurado. É com o figurado vidrado que ganha uma identidade própria. Assina as peças como Conceição Sapateiro em homenagem ao pai que faleceu 12 dias antes de ela ganhar o prémio nacional de artesanato de 1995/96. "Depois daquele momento, prometi a mim própria que não fazia nenhuma peça que não tivesse o nome do meu pai. Cada peça da minha obra é uma homenagem que lhe presto”. É também em memória do pai que algumas das suas peças retratam a profissão de sapateiro. "O primeiro [sapateiro em barro], chorei ao fazê-lo".

 

O marido, Joaquim Vitor Oliveira, também nascido e criado no seio de uma família de fortes tradições barristas de Areias S. Vicente, é um parceiro na criação das peças e, segundo afirma, juntos constituem uma boa equipa, na medida em que juntam a tradição dos vidrados de Areias com os pintados garridos de Galegos, numa composição única que posiciona a sua obra como singular e diferenciadora.

 

Tem uma ascensão rápida no contexto da arte popular portuguesa e ganha inúmeros prémios e distinções em feiras nacionais e internacionais. Destes, destaca a distinção obtida em Tenerife, em que foi considerada a "Embaixatriz do Artesanato Português” e o Prémio Nacional de Artesanato. A peça que lhe granjeou este último prémio faz parte de um nicho existente no edifício da Câmara Municipal, em homenagem aos artesãos de Barcelos. Dos demais prémios, diz já não ter memória, por serem muitos...

 

Com uma obra muito vasta e com uma temática que obedece aos preceitos tradicionais do figurado de Barcelos, onde se destacam as peças ligas à Religião e Festa, Bestiário, Quotidiano e Mundo Rural, as peças de Conceição Sapateiro dão corpo ao imaginário popular. Da sua produção particularmente rica, destacam-se Cristos, presépios, santos populares, ceias, lava-pés, cruzes, profissões, galos e galinhas.

 

Para além da expressividade e dos jogos de cores, onde predominam os verdes e os azuis – talvez uma influência do seu passado em Espanha, onde conviveu com as cores utilizadas na porcelana – destaca-se uma característica particular nas suas peças, nomeadamente nas do foro feminino: o volume dos seios. A este propósito, afirma, com a prontidão que lhe é conhecida, que lhe dão um aspecto "airoso” e de mulher composta.

 

Mas a verdade é que gosta mais de umas peças do que de outras. Não gosta particularmente de fazer Galos, mas confessa que é o que mais vende. Não gosta também de fazer peças por medida. "Gosto é de criar a partir da minha imaginação. Tenho é de ter o coração, as mãos e a cabeça bem”. De resto, é deixar que os dias se transformem em peças de barro.



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